sexta-feira, 1 de junho de 2007
Amizade- Lya Luft
amizadeEnsaio sobre a amizade"Que qualidade primeira a gente deve esperar de alguém com quempretende um relacionamento?Perguntou-me o jovem jornalista, e lhe respondi: aquelas que seesperaria domelhor amigo. O resto, é claro, seriam os ingredientes da paixão, que vãoalém da amizade. Mas a base estaria ali: na confiança, na alegria de estarjunto, no respeito, na admiração. Na tranquilidade. Em não poderimaginar avida sem aquela pessoa. Em algo além de todos os nossos limites edesastres.Talvez seja um bom critério. Não digo de escolha, pois amor é instinto eintuição, mas uma dessas opçoes mais profundas, arcaicas, que a gente fazaté sem saber, para ser feliz ou para se destruir. Eu não quereria comoparceiro de vida quem não pudesse querer como amigo. E amigos fazemparte de meus alicerces emocionais: são um dos ganhos que a passagemdo tempo me concedeu. Falo daquela pessoa para quem posso telefonar,não importa onde ela esteja nem a hora do dia ou da madrugada, edizer: " Estou mal, preciso de vc. " E ele ou ela estará comigopegando um carro, um avião, correndo alguns quarteirões a pé, ousimplesmente ficando ao telefone o tempo necessário para que eu merecupere, me reencontre, me reaprume, não me mate, sejá lá o que for.(...)A amizade é um meio-amor, sem algumas das vantagens dele mas sem oônus do ciúme - o que é, cá entre nós, uma bela vantagem. Ser amigo érir junto, é dar o ombro para chorar, é poder criticar (com carinho,por favor), é poder apresentar namorado ou namorada, é poder aparecerde chinelo de dedo ou roupão, é poder até brigar e voltar um minutodepois, sem ter de darexplicação nenhuma. (...)Amigo é aquele a quem a gente recorre quando se angustia demais, e elechega confortando, chamando de " minha gatona" mesmo que a genteesteja um trapo.Amigo, amiga, é um dom incrível, , isso eu soube desde cedo, e não viveriasem eles. Conheci uma senhora que se vangloriava de não precisar deamigos: "Tenho meu marido e meus filhos, e isso me basta." O maridomorreu, osfilhos seguiram sua vida, e ela ficou num deserto sem oásis, injuriadacomose o destino tivesse lhe pregado uma peça. Mais de uma vez se queixou, enunca tive coragem de lhe dizer, àquela altura, que a vida é umaconstrução,também a vida afetiva. E que amigos não nascem do nada como frutos doacaso: são cultivados com...amizade. Sem esforço, sem adubosespeciais, sem método nem aflição: crescendo como crescem as árvores eas crianças quando não lhes faltam nem luz nem espaço nem afeto. (...)Nesta página, hoje, sem razão especial nem data marcada, estouhomenageando aqueles, aquelas, que têm estado comigo seja como for,para o que der e vier, mesmo quando estou cansada, estou burra, estouirritada ou desatinada, pois as vezes eu sou tudo isso, ah! sim. E obom mesmo é que na amizade, se verdadeira, a gente não precisa sesacrificar nem compreender nem perdoar nem fazer malabarismos sexuaisnem inventar desculpas nem esconder rugas ou tristezas. A gente podesimplesmente ser: que alívio, neste mundo complicado e desanimador,deslumbrante e terrível, fantástico e cansativo. Pois o verdadeiroamigo é confiável e estimulante, engraçado e grave, às vezesirritante; pode se afastar, mas sabemos que retorna; ele nos aguenta enos chama, nos dá impulso e abrigo, e nos faz ser melhores: como overdadeiro amor. Lya Luft
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